segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Quero ser gente boa!

      Quero ser gente boa.

   Imaginemo-nos topeiras. Cegas topeiras cavando em um sentido indicado por nossas mentalidades topeiras.
   Cavamos, cavamos, cavamos, imaginando achar luz em algum outro lado, mais graminhas verdes, ar puro,   ... quando o sentido era outro!
   E como não lhe faltarão outras topeiras a indicar novos outros caminhos de desvio, oh!
   Topeiras são fãs de Drummond! Como entendem bem de que “ no meio do caminho havia uma pedra”! E ironicamente me chamo Fraga e Fraga quer dizer pedra. É! Pedra como uma rocha qualquer, entende?!? Talvez não. Ainda mais se você, ainda, for topeira. Dito assim, fica subentendido que já não sou mais topeira e pressuposto também fica porque está, aqui, registrado, rs..
   Levando fui a vida, cavando também, olhos fechados e lembrando de quando caminhava na praia e ao retornar ouvia: - Oi! Tudo bem? E o mar está calmo?  Como era constrangedor responder no automático:- Oi! Sim! Ok! Com toda a vergonha de não ter visto o mar, o personagem principal da praia. Olhava meus pés molhados, areia grudada, testificando que toquei nele, e nela, porém a lembrança não estava comigo. Meus olhos o viram por certo, mas não registrei a paisagem! Viro meus olhos para cá e para lá para ativar meus softwares. Chave de casa na mão, andando para não ficar parada e nada de lembrar do mar.
   Pouco depois, ao sair do estágio topeira, e chegar ao estágio preá, eu escrevi um livro : “Era de aço e não sabia”, qual o quê? Logo que o concluí, tive a mais braba crise de labirinto sem nem sequer saber do que se tratava. O que me fez entender que não sou de aço coisíssima nenhuma! Sou de carne e osso, sou humana! Mas, ainda me achava o máximo! Era uma preá! A mais honesta, a mais forte, a mais...  até ter bronquite e dores na coluna!! Chiiii!
   Aí, os pontos de interrogação começaram a cair em minha cabeça como uma chuva de granizo daquelas que fazem você correr para a marquise mais próxima, a casa está longe, ainda. Pedras caindo! De novo essas pedras? Sou pedra, sou rocha! Só que não quero esmagar, quero ser tijolo! Quero construir!
   Virei professora. Preciso saber o que falo e escrevo e sobre o que falo ou escrevo. Quem mexe com o saber para si é uma coisa, mas para os outros é outra e ainda mais adolescentes... ser formadora de opinião sem permissão para tal
É Fó... fogo! Mediadora, mediadora é a palavra! As palavras devem ser bem analisadas por mim antes de saírem de minha boca: -Parem de brigar!!! Que pô... porcaria ! -Guardem os celulares e não conversem em aula, que mé.. meleca!
    E a vida não está mole para ninguém!
    A brincadeira da topeira foi só para vocês olharem para o mar. Se não houver mar olhem para as flores, borboletas. Beijem cada filho seu como se fosse o pródigo, dancem como se ouvissem música e a cantem para Deus em agradecimentos.
   Eu estou em obras, pedra a pedra, ops! Tijolo a tijolo em um desenho mágico seguindo a palavra Dele e querendo virar gente boa.  Que hoje seja um dia iluminado para todos nós!  


domingo, 8 de junho de 2014

Desabafo Histórico

   Desabafo histórico


   Dom João VI chegou, fitou o povo e disse:-Todos pardos! Eis que pelo fenômeno do  “Deixa Fazer” devido ao clima dos trópicos, analisou.
   Seu filho, Dom Pedro I, mais tarde, compôs a música do Hino da Independência, primeiro Hino Nacional . Sua bisneta, Princesa Isabel, quebrou algemas em um ano bem simbólico, desenhado:1888!!
   E nossa bandeira, pós-Império, tem em sua faixa a frase “Ordem e Progresso” que soou como ameaça até nos entendermos como brasileiros. E como isso não nos aconteceu ainda, soa até hoje em verde e amarelo.
   Lobato afirmou que somos o “quintal de Portugal” e alguém duvida? O acordo foi firmado para manter a ordem na língua, como se a nossa não fosse afiada para cortar amarras. A Terrinha, ainda, apita no jogo da ortografia.
   Foram-se nossas matas, nosso ouro, vimos enforcado quem não aceitou o desvio.      Vimos o irmão índio vestido e queimado. Vimos o irmão negro descalço e humilhado.
  Que o brasileiro não tem memória todos exclamam!
  Quero um antídoto para o racismo hipócrita, para a falta de memória histórica, para a evasão escolar, para a falta de educação e tantos erros.

  Que o verbo venha do futuro para o presente para que assim, e enfim, nos entendamos como pardos fortes brasileiros!!!!! Gooooolllll

sábado, 7 de junho de 2014

quinta-feira, 8 de maio de 2014

    Eu só quero abraçar minha mãe.

    Enfim, está clareando. Estou sem voz, gritei o que pude neste silêncio, nunca odiei tanto o silêncio, nem os insetos se apresentaram.
   Estou respirando melhor e pausadamente, parece que estou me conformando com a morte. Não! Não! Eu quero viver, sei que o Senhor é o único que me ouve agora, eu quero viver! Estou movendo os dedos da mão direita, mas meus braços estão imóveis, não sinto minhas pernas.
   Eu quase não bebi, acho que foi um gole ou dois em copo de amigos. Amigos?! Como não me impediram de dirigir? Já que não posso mentir para Quem Tudo Sabe, eu confesso que dei umas tragadinhas, mas foi para abstrair a lembrança de vê-lo beijando aquela piriguete. Eu cheguei muito atrasada, estava no salão de beleza, e acho que ele pensou que eu faltaria ao nosso encontro. Não acredito que ainda quero arrumar desculpas para quem nunca me respeitou! E eu me respeito? A curva da estrada me engoliu. Não sei quantas vezes capotei, não sei onde estou nem como estou. O líquido que escorre em minha testa não é suor, sinto frio. Ele é quente, grosso e mistura-se com minhas lágrimas.
   Não quero morrer, Senhor! Quem me ama, verdadeiramente, não pode ficar sem mim. Ela deve estar desesperada nesse momento, ouvi meu celular tocando por toda a madrugada, sei que era ela. Perdoe-me minha mãe! Se eu sair dessa, eu a abraçarei forte com toda a gratidão que você merece.
   A última aula do curso foi sobre eufemismo, “partir dessa para melhor”, “descansar”, “virar estrela’, “encontrar-se com Deus”. Ou, ironicamente, como eu mereço: “comer capim pela raiz”, “ ir para a terra dos pés juntos” , Não é para rir não! Quero parar de pensar... não consigo!  Se “ penso, logo existo” então ainda tenho chance! Tenho emprego e estudo, cumpro meus deveres e daí acho que posso “enfiar o pé na jaca”, posso fazer o que quero!  Menos guiar meus pensamentos, estou misturando tudo, preciso pedir perdão pelos meus pecados e parar com todos esses pensamentos loucos já.
   Quebro este silêncio batendo com minhas unhas de porcelana que ainda não paguei nas ferragens do carro, alguém precisa me ouvir.
   Percebo que isso não foi culpa dele, eu que pareço um para-raio de canalhas, as pistas esfregavam-se no meu nariz. Nariz, fungo, tusso, espirro sangue no vidro do carro. Sempre espirro quando o sol bate em meu rosto frio. O sol que tanto persigo, agora me horroriza.
   Perdoe-me por todos os meus pecados! Lava-me com o poder de seu nome, Nosso Senhor Jesus Cristo!  Nenhuma droga me dominará mais, seja verde, seja branca, seja humana.
   Estão gritando lá em cima, acho que me viram. Grata! Grata!
   São muitos, acho que um exército. Um som maravilhoso de pedras estalando e galhos se quebrando.
   Agora estão cortando a lataria de meu carro, não ouso gritar, eles já viram que mexo a mão direita. Acomodaram-me em uma maca e a sobem pelo barranco com muito esforço. A minha crença na humanidade voltou. Esqueça o que falei sobre todos os homens, Senhor. Estes aqui prestam!
 Rasgaram minhas calças de grife cara, minha mãe escondeu o meu vestido temendo um estupro na noitada. Acaso não me respeite, mãezinha, eu já me basto!
   Movo meus olhos piscando em respostas e agradecimentos. Não tenho coragem de forçar as palavras.
   A ambulância corre com sirene estridente e eu repetindo baixinho, perdão, perdão, eu só quero abraçar minha mãe.   

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Minha oração



      Com um empurrão a janela abriu.
Senhor, agradeço por este milagre: mais um amanhecer. O sol vem chegando, logo aparecerá e esquentará. A claridade começa a invadir o meu quarto. Quanto poder! A noite não pode teimar em dizer:- Não quero ir! Temos a certeza que o dia chegará sem barreiras, mesmo as nuvens mais carregadas não cobrirão o poder do Seu astro, Rei.
      Quantas auroras, como esta, eu poderei contemplar? Não sei. Minha ignorância humana do “só sei que nada sei” é tão real como este céu.
      Senhor, que eu aproveite “cada milionésimo de segundo” deste dia em Sua presença.          Que eu não me desvie de Seu Espírito Santo nem um só momento. Que eu só pratique o bem porque nisto reside a minha saúde.
      Peço perdão pelos meus pecados, até mesmo por aqueles que ainda não reconheci como tais. Também pelas palavras cortantes que saíram de minha boca em momentos de descuido e que, lamentavelmente, não posso pegar de volta. Desfaça o poder destrutivo delas, recicle-as, transforme-as, é uma súplica para Quem tudo pode.
      Para que, assim, eu seja merecedora desta grande benção: ter forças para abrir uma janela e contemplar o nascer do sol.
      Não sei quantos me restam, só o Senhor sabe.

       

quarta-feira, 26 de março de 2014

Uma homenagem ao meu tio Carlos

   Uma homenagem ao meu tio Carlos

   Lembro-me de como meu coração inflava-se
 de carinho quando o via conversando na padaria.    De como ele equilibrava o seu cigarro no canto da boca malabaristicamente, rindo, contando causos, filosofando.
   Quando me via entrar no recinto, aproximava-se para pagar minhas compras e era aí que me arrependia do excesso de guloseimas. Só retirava o cigarro do canto para dar beijinhos espalhando fagulhas brilhantes para todos os lados em um abraço apertaaado.
   Muitas vezes, quando o via distraído com o padeiro, passava escondida por trás do balcão para pagar comprinhas com minha mesada, de nada valia o meu gesto honesto e desinteressado, pois a atendente me alertava: - seu tio disse que você, aqui, não paga.
   Não conheci meu avô materno, outro Carlos, mas soube o que dizia sobre o genro: - Êta! Português exagerado!
   Ele foi muito querido. Quanta saudade de meu tio com seu cigarrinho que nunca caía do canto da boca.
    


sábado, 19 de outubro de 2013

Achado não é roubado

Achado não é roubado


E foram apenas dois cocos e algumas bananas, mas a polícia o pegou como se fosse assaltante de banco.
Foi parar atrás das grades sem direito a advogado.
Os dias passavam e ele só queria explicar para sua mãe o porquê não havia voltado com o pão. Ele havia perdido o dinheiro e enquanto o procurava avistou a casa com um coqueiro tombado e bananas no chão da rua.
O cão deu o alarde e a dona da casa já havia chamado a polícia, tudo foi tão rápido. De dentro da viatura, ele pensava como poderia ser crime pegar frutas no chão, poderia pedir perdão.
Ao segurar as grades, lembrava-se de seus dias na escola, eram tão bons. Não faltava para não perder a comida e também para fazer o dever com capricho, prestava muita atenção à professora. Prometia para sua mãe que iria se formar ...um dia.
Era educado. Aos guardas dizia: “- por favor” e ao entregador de marmitas
“ - brigado”.
Certo dia, chegaram à delegacia duas velhinhas, uma branca e uma negra. A branca reclamava com a polícia que o ladrão continuava pulando seu muro e furtando seus cocos, bananas e pertences. A negra pedia informações sobre seu filho desaparecido.
O delegado que era um homem justo, entendeu que houve um equívoco. Mostrou o tal “ladrão” para a dona branca, que logo desfez o engano, aquele rapaz não era o moleque que invadia sua casa.
Ao olhar para a entrada da delegacia, viu sua mãe na sala, a velhinha negra, e se emocionou. O rapaz chorou, ele era inocente.
O delegado o soltou com muitos pedidos de desculpas, ele aceitou e saiu explicando o acontecido para sua mãe.

Naquele dia, ele resolveu voltar para a escola, sabia muito bem que achado não é roubado. Graças a Deus, tudo foi solucionado e agora ele tem um sonho: se tornar um advogado.  

Dai-me graças, Senhor!


     Dai-me graças senhor!
    Mesmo sabendo que não sou merecedora, me atrevo a pedir graças. Desejo um emprego de professora, porque tenho muito a ensinar, basta saber se os outros querem aprender tanto quanto eu quero, e por isso passo a refletir. Dai-me graças senhor!
     Sinto em dizer que os seres estão perdendo a noção do que é correto por dinheiro, e isto já vem do seu tempo, mas é que, agora, tudo piorou.
     Estou sem dinheiro, sem emprego, e mais duro é constatar que minhas dívidas irão aumentar com minha ausência em casa. Dizem que ninguém morrerá com a minha falta, que é só impressão minha, mas tenho uma caçula magrinha que não se vira para se alimentar e, certa vez, quando cheguei em casa às 18 h. , depois de sair cedo para trabalhar como secretária nas eleições, ela me disse que não havia comido nada desde então, fui cobrar da sua irmã acima a quem dei a obrigação tal e esta me respondeu que a pequena lhe dissera que nada queria e ponto final. Ponto final? Ponto de interrogação meu e de exclamação dos outros porque de fato ninguém morreu. Tá! Vejo que hoje tudo é muito simples, basta um levantar e abaixar de ombros, um bater com uma mão na outra limpando poeira invisível e um fazer de beiços em mímicas a dizer: - e eu com isso?
     Por tentar fazer o certo é que me atrevo a pedir graças. Vivemos momentos de total displicência e negligência com pessoas pensando: “- quem esquenta a cabeça é palito de fósforo” e daí deduz-se que todos se cansaram de procurar seus direitos. As leis não são cumpridas. Você ocupa um lugar já sabendo que se chegar alguém dono do dinheiro jogarão você para o final da fila. E por falar em fila, outro dia, de dentro do ônibus, vi uma enorme e pasmei, porque riam e conversavam, contando piadas talvez, porque de longe não se ouvia o motivo da graça. Mesmo em uma imensa fila, todos já haviam encontrado um meio de não se cansar, encostavam-se na parede, sentavam no chão ou em algo improvisado e não se irritavam pois era sabido da falta de vantagens e ficavam assim desfrutando o momento anti-reflexivo da falta no emprego ou da falta deste.
     Os americanos estão lá com aquela famosa frase na cabeça: “time is money, time is money” e por isso engolindo o mundo como um sapo a mosquitinhos e nós aqui gargalhando porque ouvimos dizer que rir é o melhor remédio, e , só por isso não vou chorar, mas ainda querendo ensinar o certo, luto para merecer Sua aprovação...

      Dai-me graças senhor!      

Esperem por mim

Esperem por mim!!

Eu estava lavando as panelas,
Limpando as janelas,
Aguando o jardim.

Preciso alimentar minha cria,
Ver o mundo lá fora
E lembrar de mim

Lembrar que eu gosto de ver orquídeas brotando,
Surgindo crisálidas
Remexer a terra e achar: o anel perdido, o bulbo escondido
Um prazer sem fim.

Esperem que eu preciso colocar o lixo para fora,
Agradecer às cachorras a guarda.
Preciso ensinar a verdade,
Manter vaidade em cuidar de mim.

Esperem que eu chego e mostro
Que também posso apontar o poço e não mais cair.

Esperem que falta pouco.
Já sinto orgulho em achar que está quase pronto,
Posso colocar um ponto e enfim chegar

Até aí. 

Erro de cálculo

Erro de cálculo


     Ninguém mais o procurava. Foi dado como furtado e ponto final. E quem achava que ao vendê-lo continuaria rico, foi envelhecendo na mais triste pobreza. Foi um erro de cálculo.
     O seu dono era um homem amargo que só sorria para seu papagaio. Não se casou nem teve filhos. Foi o último de uma nobre família e pensou que poderia viver bem, até o final de seus dias, vendendo os pertences herdados: talheres de prata, copos de cristal, louças inglesas, tapetes persas... Era precisar, vender, que o dinheiro caía em suas mãos.
     Quanto ao objeto furtado, tratava-se de um anel de brilhantes que valia o preço daquela casa luxuosa que aos poucos se esvaziava.
     O anel era guardado no cofre e de lá só saía para ser colocado na janela, o seu dono adorava vê-lo multiplicar os raios coloridos do sol por todo o quarto. Só seria vendido se muito necessário fosse.
     Certo dia, o anel sumiu. Foi um alvoroço. A polícia investigou o caso interrogando toda a vizinhança porque empregados não havia. O furto não foi desvendado.
     O tempo foi passando, o jardim secando e o silêncio só era quebrado pela fala do papagaio, único e último amigo do velho:
 - Querido, tô aqui! – Querido, tô aqui!

      Morreu em uma manhã de sol. Foi encontrado perto da janela sendo consolado pelo seu papagaio que o tocava com o anel no bico multiplicando os raios coloridos por todo o quarto.



   

Não tem preço

Não tem preço

   Quando veio abaixo a última parede da casa em ruínas da minha rua, eu não poderia imaginar como minha vida poderia virar do avesso. Eu era uma garota ingrata.
    Os pedreiros remexiam o entulho, eu me aproximei para ver o que encontraram. Eles acharam um pequeno baú pesado, feito de um metal que não conheço. Eles abriram o baú discutindo e combinando dividir “o tesouro” e ficaram muito decepcionados quando viram que eram coisas velhas e infantis: uma boneca de trapo caolha, recortes de jornais, um diário, um lápis com borracha que nunca vi igual e algumas quinquilharias sem valor. Perguntei se poderia ficar com aquilo e eles responderam que o jogariam no lixo.
   Voltei para casa correndo e me tranquei em meu quarto. Passei aquele sábado examinando cada objeto. Há dias, fico olhando a demolição imaginando mistérios, brinquei muito naquele terreno desobedecendo minha mãe.
   Passei um pano úmido nas coisas e as coloquei no parapeito( agora sei o porquê do nome) da janela pegando ar, tudo era muito velho.
   Quando abri o diário, com todo cuidado, quase caí para trás ao ler o ano de 1918!!
   Mamãe me chamou para o almoço, eu reclamei mas fui porque ela ficaria batendo na porta. Engoli a comida, menti que iria estudar e retornei para a leitura virando as páginas com a pontinha da unha. Até que tudo estava bem conservado. Quase 100 anos!!!
   A menina que escrevia tinha a minha idade. Ela começou a escrever depois que seus pais morreram na mesma semana e de uma tal “grippe espanhola”. As palavras são escritas com letras dobradas: anno, grippe, affirma... e outras de forma estranha: victima, contradicção, pharmacia com ph??  “Como debellar a grippe?” -li no jornal- Debellar? Vou procurar no Google!
   Estou lendo de boca aberta, ela escreve com muita tristeza e saudades, está sendo cuidada por uma tia que está grávida e muito nervosa, todos da casa estão com muito medo da tal “grippe”.
   Eu sempre fui muito distraída, vivo de cara para meu celular, não respondo para o porteiro que me cumprimenta, nunca dou beijo e abraço em meus pais quando vou para o colégio, não dou a menor bola para o Bilu que faz a maior festa quando eu chego e vovô e vovó só vejo em aniversários. A menina morre de saudades dessas coisas e me deu vontade de chorar com ela 95 anos depois.
   Fui até minha janela para ver o que ela descreveu como “Espetáculo Primaveril”, minha professora fez o mural da primavera e eu nem liguei... agora, olho tudo florido, é a mesma visão de 1918? Muito bom olhar a natureza, não sabia que era tão bom, tem até perfume!
   Precisei desligar o celular, não queria parar de ler, minha mãe não vai me chamar nem para o lanche.
   A menina está arrumando suas coisas para voltar para a terra de seus avós paternos, só que não escreveu onde fica. Ela está muito triste.
   Ela conta que a tia repete o tempo que tanto os que venceram a guerra quanto os que perderam sofrem agora igual. Como também repete que sua casa deverá parar de ser construída.
      Ao final de seu diário, ela escreve que está torcendo para que o bebê nasça saudável e que seja menina para aproveitar seus brinquedos, planejou deixar seu baú enterrado em um dos pilares da casa. Os nomes já estavam escolhidos, se for menina se chamará Margarida e se for menino Astolfo. Astolfo? Astolfo é o nome do velhinho que fica sentado no mercadinho da esquina, ele dá balas para a criançada do bairro. Gosto dele.
 Será?

    O que aprendi hoje não tem preço, não quero mais ser ingrata com tanta coisa boa que recebo, nem com pessoas legais que conheço. Darei um abraço apertado em minha mãe, esperarei papai com o jornal, domingo visitarei meus avós, colocarei a coleira no Bilu para colher algumas flores e levar para seu Astolfo em agradecimento pelas balas. Agora sou outra e isto é um “facto” !!  

Ordem Divina

Ordem divina


Nasceu em uma manhã fria e com mais aquela chuva fina estaria sentenciada sua morte se não fosse a ordem divina: - viva e cresça! Tenho um trabalho para você.
Quem discute com Deus? O corpinho tremia de frio enquanto o coração batia insistente e obediente.
Com muito custo emitiu um som, depois dois, só que ninguém os ouviu. Foi ganhando fôlego e provocou um gemido mais alto. Sentiu o calor de um ser vivente novamente. Alguém o pegou! Ainda não podia abrir seus olhinhos.
Recebeu seu primeiro alimento, engoliu-o desesperadamente quase se engasgando.
Quem seria essa alma bondosa que tocada o salvou? Poderia ser alguém rico que logo lhe compraria uma caminha quente e roupinhas, só que Deus permitiu a tarefa a um morador de rua.  Mas a ação foi igualmente acolhedora.
Foi arrumada uma caixa de papelão com trapos de pano macio para lhe servir de cama e vestido com roupinha mais quatro sapatinhos achados no lixo. Descartados, quem sabe, por alguma madame.
Tão quentinho e bem alimentado que nem faria diferença caso parasse em casa de luxo. Carinho não lhe faltava.
Tão logo ganhou forças e peso, abanou seu rabinho e lambeu o rosto de quem, tão generosamente, dividiu seu canto e alimento.
Vagava com seu dono pelas ruas, foi crescendo com saúde, porém o mesmo não acontecia com seu amigo que aos poucos adoecia. A tosse era um tormento na madrugada.
O dia preparado chegou.
Em uma esquina de rua perigosa houve uma batida de carros. Um pai chorava desesperadamente pelo filho que havia sido arremessado pela janela. A criança não estava com cinto de segurança.
O cão entrou no mato e achou a criança rapidamente, coisa que os bombeiros não estavam conseguindo. O pai não se continha em gratidão, quis pegar o cão e tirá-lo das ruas, mas ele não se deixava agarrar, corria de um lado para o outro escapando de todos. Correu de volta para o beco onde seu dono tremia de febre.  
O pai foi atrás, precisava muito agradecer. Quando o avistou, contemplou a cena comovido: o cão e o mendigo eram verdadeiros amigos.
O pai, homem de bom coração, promoveu socorro para o morador de rua em seus últimos momentos de vida.
Hoje, o cão mora bem instalado, olha para a rua de sua varanda abanando seu rabinho, sem entender a diferença entre lixo e luxo, retribuindo carinhos e cumprindo seu papel como um bom cão.
            

segunda-feira, 23 de abril de 2012


   
SOS Múmia

           

            O tempo é inexorável.
            Eu que o diga! Não aguento mais esta minha situação estática no museu da Quinta da Boa Vista.
          Aqui estou eu neste esquife de vidro a ver rostos e rostos me admirando durante os dias e isso por tantos anos seguidos.
            Sussurro meu manifesto a quem tiver sensibilidade para entendê-lo, pois o faço por pensamento.
            Fui famoso em vida e venerado por meus súditos até depois de morto. Milhares de anos se passaram até que me tiraram de sono profundo para me darem de presente a um monarca brasileiro. Puseram-me num navio, trouxeram-me para esta terra, quedaram-me nesta Quinta e por pouco tempo me respeitaram.
            Os séculos passaram e meu valor foi esquecido pelo povo a quem me presentearam.
            Não aguento mais essa exposição sem fim, secularmente falando. Acho que todos vocês já me olharam; tanto os moradores quanto os viajantes que pelo Rio de Janeiro passaram. Quem sabe espantados pela minha magreza de múmia ou pela perseverança de existência, porque existo, sim, eu existo. E existo porque penso, mas penso sem estar vivo; não vivo porque não me circula sangue nas veias; não vivo porque não respiro este ar poluído nem convivo com essa gente mesquinha que não respeita suas relíquias e ignoro por que não me enterram...
            Se com chuva já me encharcaram.
            Se com pouco caso já me cuidaram.
            Se com desprezo já me humilharam...
            Não sei por que não me enterram.
            Se a quem fui dado também já é morto e só pela história não sou esquecido, que me ingressem na literatura para que eu ganhe o respeito devido.
            Que os jornais propaguem o descuido desse teto cheio de cupins que protege outras relíquias e não só a mim, o mais rápido ou que ao menos divulguem a notícia, hoje e sempre, para o mundo globalizado de onde convergem olhares críticos: A múmia pede socorro! 
            Ah! Agora, compreendo o porquê não me enterram! ...os olhares críticos...
             


     Jequitibá Rosa 

  

     Meus pés são raízes nesta terra e vi quando eles chegaram.
     No silêncio de nossas matas, com fumaça se denunciaram. Entraram sem pedir licença e ainda nos abençoaram.
     Repito que vi quando nos descobriram, vi quando nos batizaram e também vi quando nos roubaram.
     Senti a dor de nossos nativos com a falta de liberdade e bebi o suor de tantos forasteiros cativos, fruto de tanta maldade.
     Eu vi quando enforcaram aquele que queria nossa independência, como vi também quando negaram o nosso petróleo, nos oprimiram e depois quando nos venderam.
     Vivi por séculos, dois milênios, calado temporalmente falando e sofri por tanta ignorância que não me sai da lembrança.
     Perdi a conta de toda a perda do que iria ficar de herança pros teus. Deus, dê –me esperanças...
     Mas eu vi a mulher se despir e ser presa, o índio vestido sendo queimado, depois quando o mar sujaram e muitas desculpas pediram... eu vi!
     Despeço-me, agora, com os meus pés ardendo em chamas- chorei- com meus galhos erguendo-se aos céus- clamei: perdão por tanta ganância...
     Lamento mas, só posso morrer por ti e pros teus.     
                 

  



domingo, 22 de abril de 2012

                Linhas


“-Ande na linha minha filha” – lembrava das palavras de sua mãe, vovó Sophia, tendo que descer do trem e andar a pé pela falta de luz que a tudo parou.
                Parece que parou até o tempo e fez vovó voltar à sua juventude bem no dia em que saiu do interior cheia de sonhos para chegar no Rio de Janeiro e ir direto para a casa de uma família conhecida dos patrões de sua mãe. Chegou para lavar, cozinhar, cuidar de casa. Em sua terra não tinha mais chance de se tornar alguém, nem comida mais havia.
                Sua mãe foi levá-la para tomar a condução rumo ao seu novo trabalho e despediu-se com esta frase que agora ecoa do passado ao presente, no silêncio dessa procissão resignada que se formara pelos usuários dos trens paralisados pelo apagão (blackout) e que seguia a pé pelos trilhos.
                Não há o que fazer se não andar. O cansaço não importa, e ia arrastando os sapatos nas pedras barulhentas, mas, não barulhentas o bastante para abafar as frases teimosas que chegavam de longe com o mesmo tema.
                “-As letras redondas e as palavras nas linhas” gritava a sua primeira professora com a régua na mão ameaçadora. Por medo, aprendeu a ler e escrever rapidamente.  
                “- Querida mamãe, escrevo-lhe estas mal traçadas linhas para que não se esqueça desta filha em suas orações. A vida aqui também é dura, mas poderei, com meu trabalho, ajudá-los a enfrentar a fome.”
                O sol nasce e vovó já está no trem, o sol morre e vovó vem cochilando no balanço da volta para casa.
                “- Tire uma linha do rapaz no fundo do vagão” vinha outra frase cochichada por uma amiga nos idos dos anos cinquenta.
                O rapaz elegante tornou-se seu marido, como diziam na época: alinhado.
                Quando vovô se foi, vovó chorou olhando a linha do horizonte.
                Ao dar meia noite, toda a família alinhou-se na rua escura. Estávamos aflitos e sem informação sobre a nossa doce velhinha.
                Rezávamos baixinho enquanto um vulto subia a ladeira. Era ela que vinha sorridente , tão imponente e orgulhosa ao ver sua grande família bem formada e alinhada a sua espera.
                Abraçamos vovó com todo o carinho e é certo que ela, na vida, nunca perdeu a linha.  
                Que coisa linda vovó fez, pegou suas memórias, naquela noite, e junto com as linhas dos trens costurou um tecido imaginário até chegar em sua casa conquistada pelo poder dos desafios da vida e sorriu ao ver seu trabalho completo: uma bela família.


quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Enfim, eu 


  Gostaria de expirar todo o ar que carrego e com ele todos os sentimentos ruins que me incomodam.  Aqueles que franzem minha testa, amargam minha boca, envenenam minhas palavras e endurecem minhas atitudes.  
   Estou perdendo a ternura em um efeito dominó de consequências.
   Queria mergulhar em uma onda forte para me desgrudar dos espinhos, me arrastar na areia para polir os que sobrassem...
                                                                         ...e chegar em casa feliz por voltar a ser eu mesma.

UH! UH!

          
      Estou aqui no meio da turba efervescente, pulo de braços para o alto como quisesse soltar escamas, não sou peixe, pulo como quisesse voar, não sou pássaro, pulo, pulo. A batida do surdo me contagia, meu coração chega na boca, engulo-o. O tamborim vibra meus pés que se impulsionam no chão, esse som é algo “inescrevível” e é tudo o que eu precisava.                                     
     Um mês sem remédios de tarja preta, uma semana sem ligar para a terapeuta dando informações colhidas com minha mãe, há duas horas pensando em qual montanha me isolar da festa mais quente do planeta: o carnaval do Rio e  no último minuto  decido aceitar o chamado de minhas amigas. Vale tudo. Quero botar meu bloco na rua. Quase fiquei ruim da cabeça, mas sei que não sou doente do pé.
     Sinto cheiro de cerveja, chopp, sei lá, eu não bebo, sou natureba, consciente, ecológica, contudo quase pirei no ano passado, e daí neste quero enfiar o pé na jaca bem no comecinho, liberar adrenalina, berrar mesmo sem saber a letra da música, gritarei como um papagaio louco e não calarei nem quando minha voz se acabar, farei mímicas e grunhirei outros sons, suarei todos os meus temores sem pensar na Quarta-feira. Cadê as garotas? Me perdi ou me encontrei?
     De repente, numa clareira de gente suada avisto um deus grego que me chamou a atenção por já estar me olhando sentado numa lanchonete. Ele levanta o copo espumante em brinde a mim e eu minha garrafinha de água a ele, mas eis que passa um aglomerado mais denso e a massa humana retira de mim a visão do Olimpo que permanece em minha memória enquanto empurro as pessoas para atravessar a rua e chegar com custo, porém... ele se foi. Quanto tempo levará essa imagem para desbotar, desmanchar de minha mente? Ele era liiindo!!! O que era aquilo? Isto eu sei que é carnaval: imagens em flashes, pulsação, alvoroço, dúvida das horas, do tempo, o que importa é o exato momento... viro-me...  é ele, o deus, está a um palmo de meu nariz, sorrimos, gargalhamos e ele me solta um “hi!”, desmancho o sorriso, não falo inglês e “the book is on the table” não me servirá, e agora? Franzo a testa e ganho um beijo. Nossas línguas portuguesa e inglesa se entenderam muito bem. Ele me diz que não fala português, eu entendo isso. Sentamos e ficamos nos olhando nos olhos longamente, parece que fiquei surda por instantes, não ouvia só sentia, nos demos as mãos e pulamos durante horas.
      Ele tenta sambar , leva jeito, rodopia mostra molejo, porém dobra a ponta dos pés e saltita o frevo pernambucano, tá valendo; eu esnobo meus passinhos aprendidos com meu avô cearense de Sobral que era totalmente duro de cintura, mas foi ele o meu querido professor de samba. Não estamos fazendo feio não. Quando chega o empurra–empurra nos agarramos nos punhos temendo a correnteza, somos um casal “sui generis” sem celular!Pra quê ?
     Dei tanta importância às interpretações de traumas infantis que por acaso teriam causado minhas inseguranças, tanta importância à palavra falada e escrita que não parei para atentar nos gestos, no tato, no cheiro, no sentimento de prazer, no afeto...
     Comecei a pensar qual dos países de língua inglesa, mais próximos de nós, poderia ser o dele.
     Nossos adereços carnavalescos são muito loucos: eu (de cabelo lavado e largado) resolvi pegar peças coloridas, de cada década passada no armário de minha mãe retornando aos anos setenta, e ele veste uma camiseta do super-homem, sandália baiana de couro cru, um relógio de camelô, gigante, branco e parado ao meio dia; não havia um simbolismo específico, mas resultou em uma homenagem às diferenças e à liberdade de escolha.
     Ele me perguntou: “- where are you from?” ‘; isso eu sei, afinal leio legendas desde sempre, respondi apontando para o chão e antes que ele me contasse onde mora, beijei-o, isso vai doer, isso é carnaval, puro exercício de desapego, ninguém é de ninguém, tudo que é bom dura pouco e o fim é na quarta-feira.
     Ele bebeu água de coco como se fosse a última, gritou e gargalhou como se fosse um príncipe, comeu um milho verde como se fosse o único e deitamos no chão como pacotes flácidos, ufa!     Engraçado, ou não, o espaço entre as pessoas está aumentando, as ruas estão alargando, o dia está clareando, e nós não nos cansamos de nos olhar nos olhos, em nossos rostos, queremos decorar cada traço. A curiosidade em saber quem somos, o que fazemos, guardamos, seria importante? A química era perfeita, e o que queríamos era não desgrudarmos mais, mas em meio a algumas palavras que ele teimava em pronunciar eu ouvi “Austrália”. Não podia crer que minha alma gêmea iria para o outro lado do planeta.
     Minhas amigas me encontraram e se aproximaram timidamente. Compreendendo que é    chegada a hora da despedida , nossos corpos foram se separando até sobrarem nossos dedos indicadores que não queriam se soltar. Repetimos o abraço e o beijo, trocamos papeis escritos com carvão de churrasqueira, demos o derradeiro beijo e entrei no carro de minhas amigas que temiam um surto psicótico. Fiquei olhando para ele até sua imagem desaparecer e comecei a rir um riso frenético, minhas amigas mudas e espantadas, eu que havia pensado tanto nas palavras para traduzir pensamentos e identificar traumas, concluí a felicidade traduzida em beijos.        
               
  

Mãe

     
       Pela fresta da cortina, encaro o Cristo Redentor por quase toda a madrugada pedindo como merecimento uma boa recuperação cirúrgica para minha mãe. Estamos eu e minha irmã Melly nos revezando em atenções para ela neste hospital que dizem ser “de ponta” em matéria de equipamentos e profissionais.
       Prescrita a retirada da vesícula, de nada adiantou minha mãe dizer que não se operaria. De fato não se operou, isto quem fez foi o médico. Tudo correu bem, mas meu maxilar se contraiu ainda mais, pois além de negar as benditas gotinhas relaxantes para relaxá-lo, estávamos todos apreensivos com o que ficou exposto na operação: O fígado estava dilatado. Retiraram material para pesquisar, para fazer uma biópsia.
      O que vem com o amanhã? A ansiedade e a angústia da espera.
       Minha irmã abre os olhos e me vê acordada, quando minha mãe abre os dela fechamos os nossos. É bom que ela pense que relaxamos para ter uma boa recuperação.
       A dúvida perdurará por três dias até que chegue o resultado do que nem quero escrever, queremos pensar na melhor das hipóteses para que tudo termine bem.
        Não há felicidade se um dos nossos não está bem.
       A maior preocupação de minha mãe é com nossa irmã Ilka que tem a síndrome de down, de meiguice, de serenidade, de bondade e um olhar que diz saber muito mais do que imaginamos.
       Minha mãe teve três meninas, eu que sou a mais velha tive cinco e minha irmã caçula teve uma. Meu pai que sempre quis um neto se satisfez pela quantidade.
       Graças que o tempo não somente enruga, também cicatriza, acalma, descansa. Mas vem de novo a lembrança e nos assusta.
       O Cristo todo iluminado está de frente para mim, de braços abertos como que dissesse: -Te acolherei!  Dá para ser com toda a minha família? Que momentinho doído! Oh tensão muscular! Vejo que não é somente a barriga cheia, a saúde não nos pode faltar.
       Serão três dias sem sorrisos? Serão três dias de orações! Que a misericórdia divina nos acalme e nossa fé não se afaste para que possamos suportá-los.
       Um, dois, três e até o final do dia o resultado não chegou. Que esfrega! ( Lobato falava assim) Pagamos muitos de nossos pecados. Só ficamos mais leves no dia seguinte com apenas uma ligação dizendo que não foi acusada malignidade. Tive vontade de aprender a sambar, sempre quis isso, mas não levo o menor jeito. Como isso é tão rico e valioso, um grande, gigantesco presente: a esperança.
       E a minha mãe lá na maior folga, em uma ignorância de dar inveja, ainda pediu ao telefone um pão de batata recheado com requeijão. Haja paciência divina!     





A atual história de Chapeuzinho Vermelho

"Chapeuzinho Vermelho foi prestar queixa contra o Lobo Mau  só que,atualmente, esse anda gozando de um certo prestígio devido ao seu jogo de cintura, litigância de má fé e um genuíno e escorregadio agir.
- Venho reclamar sobre a atual moral da minha história - disse Chapeuzinho - em outros tempos, era pautada na desobediência aos pais, que gera problemas, porém agora, resolveram me culpar por não ter visto o rabo do bicho do lado de fora. O Lobo mau é o vilão da minha história!
- Não senhora. As coisas mudaram. Quem está errado é quem se deixa enganar. Os novos tempos não perdoam os ingênuos, esses são um péssimo exemplo para a criançada.
- Mas como assim? Eu fui enganada. Cheguei na casa de minha avó, e quem encontrei lá de óculos e camisola? Reconheci ser minha avó.
- A senhora não reparou nos olhos grandes? Orelhas e dentes grandes? E no rabo? Ora, tenha dó! Escutei sua história quando pequeno " ad nausean" e não aguento mais sua burrice, porque ingenuidade é um tremendo eufemismo. O Sr. Lobo estava lá na floresta com a maior fome e aí vem a senhora com esta roupinha ridícula, e ainda por cima vermelha, fica fazendo doce, ora ora, vai reclamar de quê? Tudo isso é tão paradoxal, leva doces para a vovozinha e coloca um estranho dentro da casa dela? Ele, o Sr. Lobo está movendo contra a senhora um processo por maus tratos e olha que a sociedade protetora dos animais vem com tudo pra cima do agressor. Se eu fosse a senhora colocava uma pedra em cima disso tudo, os dois prometem não se incomodarem mais e bola pra frente que a fila anda. O  próximo!




Para quem interessar possa, o meu primeiro e-book é : Às vezes, é real e não sangra.